segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

afinal, que diaxo de filme é esse?

Uma sinopse possível para o filme Engarrafados seria:

"Em um táxi em trânsito, que percorre seis bairros de São Paulo, se dão encontros entre desconhecidos - o motorista do táxi e um passageiro, morador de um dos bairros em questão. Durante cada percurso lançaremos um olhar novo sobre a cidade, levando em conta as características especiais de cada um dos bairros. Cidade e cidadão vivem uma relação de reciprocidade: é essa relação que pretendemos explorar."

Mas, afinal, o que quer dizer isso?

 

"Em um táxi em trânsito, que percorre seis bairros de São Paulo, se dão encontros entre desconhecidos..."

O dispositivo: Engarrafados não pretende explicar São Paulo, contar a história da cidade, medir o tamanho e quantidade de avenidas e prédios, mas propor uma experiência. A experiência do filme nasce de um encontro - o dispositivo do documentário: duas pessoas que nunca se viram antes (taxista e passageiro) são obrigadas a conviver em um espaço pequeno durante cerca de uma hora e meia. Nesse tempo, o tempo de duração de um percurso proposto pelo passageiro, se dará uma conversa qualquer sobre qualquer coisa - ou conversa nenhuma. O tempo é esgotável: não podemos repetir o encontro, se alguma coisa correr mal. Temos uma hora e meia. E o que for será! São assim os encontros na metrópole - rápidos, apressados e sem segunda chance.

 

"...o motorista do táxi e um passageiro, morador do bairro em questão..."

Os personagens: não imporemos nada aos personagens que participarão do nosso documentário. Não haverá a pressão fria de entrevistas formais. Haverá, isso sim, uma conversa casual cujo rumo será ditado pelos próprios personagens. Isso porque acreditamos que nenhum assunto é mais importante que outro e não existe opinião certa ou errada. Verdade ou mentira, o que nossos personagens nos dizem são exteriorizações de seu referencial, sua história. O verbo é a concretização do imaginário de uma pessoa. Os trejeitos, os gestos, a maneira de falar, palavras, roupas e gírias são a exteriorização de sua personalidade.


"...Durante esse percurso, lançaremos um olhar novo sobre a cidade, levando em conta as características especiais de cada um dos bairros..."

O espaço: Engarrafados pretende desconstruir e re-inventar São Paulo, propondo uma nova maneira de se ver e interpretar a cidade. Afinal, reclamar da metrópole já é lugar comum. São Paulo é uma cidade bonita. É uma cidade grande demais, barulhenta demais, às vezes irritante demais, mas inegavelmente bonita e extremamente interessante.

São Paulo é infinita.

Nunca soube de ninguém que conhecesse São Paulo. Conhecemos, no máximo, partes da cidade, pedaços poucos. Mas nenhum deles é o resumo do todo - cada pedacinho é um mundo inteiro, com características próprias e únicas.

São Paulo é inesgotável.

Tem sempre um barzinho a que ainda não fomos, uma rua pela qual nunca passamos, uma padaria nova naquela esquina e um amigo que mora em um bairro que a gente nem sabe direito onde fica.

Ou: ainda que passemos sempre pela mesma rua o espaço dá um jeito de nos surpreender. Sempre é possível olhar para o mesmo farol, a mesma calçada, sob um novo ângulo.

Mais: o espaço não é estático, está eternamente em transformação.

Por isso é inevitável vê-lo como algo vivo, dinâmico. Ele se impõe a nós, não se resigna a nos servir. Assim, olhar para o espaço sempre da mesma maneira, sempre da maneira óbvia, é se contentar com uma parte ínfima do infinito.

Nesse filme, pretendemos mostrar São Paulo de uma maneira diferente, não totalizante. Outro olhar sobre o mesmo, apenas.


"...Cidade e cidadão vivem uma relação de reciprocidade: é essa relação que pretendemos explorar."

Pessoas constroem cidades. Pessoas vivem em cidades. Cidades não existem sem pessoas. Pessoas incorporam a cidade em que vivem em sua maneira de agir e interpretar o mundo. 

Pessoas reinventam e mudam suas cidades enquanto as cidades reinventam e mudam seus habitantes.

4 comentários:

Carol Campos disse...

Fagá, Fagá...
Tudo de bom! Não se esqueça de comer... sempre tenho que te lembrar... e de dormir quando der, sempre que der!
Beijos
Ana Campos (Carol ahaha)

Fel Mendes disse...

Estou ansioso pelo resultado. Qdo sai?

Conrado Roel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Conrado Roel disse...

Aê galera...

Parece ladeira acima mesmo o projeto. A toda(!), nesse mundão de meu Deus de Sampa.

Palavras inspiradas Luiza, bem mais que um relato!

Muita energia a todos!

CONRADO