Uma sinopse possível para o filme Engarrafados seria:
"Em um táxi em trânsito, que percorre seis bairros de São Paulo, se dão encontros entre desconhecidos - o motorista do táxi e um passageiro, morador de um dos bairros em questão. Durante cada percurso lançaremos um olhar novo sobre a cidade, levando em conta as características especiais de cada um dos bairros. Cidade e cidadão vivem uma relação de reciprocidade: é essa relação que pretendemos explorar."
Mas, afinal, o que quer dizer isso?
"Em um táxi em trânsito, que percorre seis bairros de São Paulo, se dão encontros entre desconhecidos..."
O dispositivo: Engarrafados não pretende explicar São Paulo, contar a história da cidade, medir o tamanho e quantidade de avenidas e prédios, mas propor uma experiência. A experiência do filme nasce de um encontro - o dispositivo do documentário: duas pessoas que nunca se viram antes (taxista e passageiro) são obrigadas a conviver em um espaço pequeno durante cerca de uma hora e meia. Nesse tempo, o tempo de duração de um percurso proposto pelo passageiro, se dará uma conversa qualquer sobre qualquer coisa - ou conversa nenhuma. O tempo é esgotável: não podemos repetir o encontro, se alguma coisa correr mal. Temos uma hora e meia. E o que for será! São assim os encontros na metrópole - rápidos, apressados e sem segunda chance.
"...o motorista do táxi e um passageiro, morador do bairro em questão..."
Os personagens: não imporemos nada aos personagens que participarão do nosso documentário. Não haverá a pressão fria de entrevistas formais. Haverá, isso sim, uma conversa casual cujo rumo será ditado pelos próprios personagens. Isso porque acreditamos que nenhum assunto é mais importante que outro e não existe opinião certa ou errada. Verdade ou mentira, o que nossos personagens nos dizem são exteriorizações de seu referencial, sua história. O verbo é a concretização do imaginário de uma pessoa. Os trejeitos, os gestos, a maneira de falar, palavras, roupas e gírias são a exteriorização de sua personalidade.
"...Durante esse percurso, lançaremos um olhar novo sobre a cidade, levando em conta as características especiais de cada um dos bairros..."
O espaço: Engarrafados pretende desconstruir e re-inventar São Paulo, propondo uma nova maneira de se ver e interpretar a cidade. Afinal, reclamar da metrópole já é lugar comum. São Paulo é uma cidade bonita. É uma cidade grande demais, barulhenta demais, às vezes irritante demais, mas inegavelmente bonita e extremamente interessante.
São Paulo é infinita.
Nunca soube de ninguém que conhecesse São Paulo. Conhecemos, no máximo, partes da cidade, pedaços poucos. Mas nenhum deles é o resumo do todo - cada pedacinho é um mundo inteiro, com características próprias e únicas.
São Paulo é inesgotável.
Tem sempre um barzinho a que ainda não fomos, uma rua pela qual nunca passamos, uma padaria nova naquela esquina e um amigo que mora em um bairro que a gente nem sabe direito onde fica.
Ou: ainda que passemos sempre pela mesma rua o espaço dá um jeito de nos surpreender. Sempre é possível olhar para o mesmo farol, a mesma calçada, sob um novo ângulo.
Mais: o espaço não é estático, está eternamente em transformação.
Por isso é inevitável vê-lo como algo vivo, dinâmico. Ele se impõe a nós, não se resigna a nos servir. Assim, olhar para o espaço sempre da mesma maneira, sempre da maneira óbvia, é se contentar com uma parte ínfima do infinito.
Nesse filme, pretendemos mostrar São Paulo de uma maneira diferente, não totalizante. Outro olhar sobre o mesmo, apenas.
"...Cidade e cidadão vivem uma relação de reciprocidade: é essa relação que pretendemos explorar."
Pessoas constroem cidades. Pessoas vivem em cidades. Cidades não existem sem pessoas. Pessoas incorporam a cidade em que vivem em sua maneira de agir e interpretar o mundo.
Pessoas reinventam e mudam suas cidades enquanto as cidades reinventam e mudam seus habitantes.
4 comentários:
Fagá, Fagá...
Tudo de bom! Não se esqueça de comer... sempre tenho que te lembrar... e de dormir quando der, sempre que der!
Beijos
Ana Campos (Carol ahaha)
Estou ansioso pelo resultado. Qdo sai?
Aê galera...
Parece ladeira acima mesmo o projeto. A toda(!), nesse mundão de meu Deus de Sampa.
Palavras inspiradas Luiza, bem mais que um relato!
Muita energia a todos!
CONRADO
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